Women are in Porto’s streets // As mulheres estão nas ruas do Porto

 

women-narToday is Donald Trump’s inauguration as the 45th President of the United-States and a protest in Washington D.C is organized by the association Act Now to Stop War and End Racism (ANSWER). But, as you may have already heard, the biggest event is the Women’s March that will take place tomorrow. Born in Washington this initiative has now become international: more than 600 marches are planned, in around 60 different countries, representing the 6 continents. 

In Portugal 6 cities are following the movement and Porto is one of them: the Marcha das Mulheres will start at 15h in Poveiros Square and is organized by a collective of around 30 organizations (associations, collectives, political parties…). We met Patricia Martins, member of Contrabando, one of the March’s initiators and organizers, to talk about the March, and other feminist initiatives and  fights in Porto and Portugal.

Hoje é o dia da tomada de posse de Donald Trump como o 45º Presidente dos Estados Unidos e uma manifestação está a ser organizada pela associação Act Now to Stop War e End Racism (ANSWER) em Washington DC. Mas, como já devem ter ouvido, o maior evento de protesto contra Trump é a Marcha das Mulheres que acontecerá amanhã. Nascida em Washington, esta iniciativa tornou-se internacional: mais de 600 marchas estão previstas, em cerca de 60 países, representando os 6 continentes.

Em Portugal, seis cidades seguem o movimento e o Porto é uma delas: a Marcha das Mulheres vai começar às 15h na Praça dos Poveiros e é organizada por um colectivo de cerca de 30 organizações. Encontramos Patricia Martins, membro da Contrabando, um dos iniciadores e organizadores, para falar sobre a Marcha, e também sobre outras iniciativas e lutas feministas no Porto e em Portugal.

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The Women’s March, an international initiative against Trump’s ideology

A Marcha das Mulheres, uma iniciativa internacional contra a ideologia de Trump

The Women’s March started as a protest against Trump’s election, following his numerous aggressive and offensive statements  towards women but also immigrates, Muslims, Black people etc.

A Marcha das Mulheres começou como um protesto contra a eleição de Trump, seguindo as suas numerosas declarações agressivas e ofensivas contra as mulheres, mas também aos imigrantes,  muçulmanos, negros etc.

“The rhetoric of the past election cycle has insulted, demonized, and threatened many of us–women, immigrants, those with diverse religious faiths particularly Muslim, LGBTQIA, Native and Indigenous people, Black and Brown people, people with disabilities, the economically impoverished and survivors of sexual assault. (…) The Women’s March on Washington will send a bold message to our new administration on their first day in office, and to the world that women’s rights are human rights. We stand together, recognizing that defending the most marginalized among us is defending all of us.“ The Women’s March

A retórica da campanha eleitoral passada insultou e ameaçou muitos de nós – mulheres, imigrantes, pessoas com diversas religiões particularmente muçulmanas, LGBTQIA, indígenas, negros e castanhos, pessoas com deficiência, economicamente pobres e sobreviventes de agressões sexuais. (…) A Marcha das Mulheres em Washington enviará uma mensagem ousada ao nosso novo governo no primeiro dia de mandato e ao mundo: os direitos das mulheres são direitos humanos. Estamos juntos, reconhecendo que defender os mais marginalizados entre nós é defender todos nós. “A Marcha das Mulheres

 

An “intersectional” Women’s March

Following some critics right after its launching, mainly lacking of racial and religious reprentativity (being all white), the Women’s March organization has opened itself to more diversity and has made intersectionality a key question of its vision principles.

We believe Gender Justice is Racial Justice is Economic Justice. We must create a society in which women, in particular women—in particular Black women, Native women, poor women, immigrant women, Muslim women, and queer and trans women—are free and able to care for and nurture their families, however they are formed, in safe and healthy environments free from structural impediments.

What is the intersectionality theory ?

It was first coined in the USA by the scholar Kimberlé Crenshaw in 1989, who argued thatBlack women were exluded both from traditional feminist and from anti-racist theories, because they both failed taking into account the specificty of the domination created by the accumulation of those two experiences, being a women and being Black.

More widely intersectionality “is used to refer to the complex and cumulative way that the effects of different forms of discrimination (such as racism, sexism, and classism) combine, overlap, and yes, intersect—especially in the experiences of marginalized people or groups.” 

Uma Marcha Feminina “interseccional”

Depois de algumas críticas logo após o seu lançamento, principalmente sobre a sua falta de representatividade racial e religiosa, a organização da Marcha das Mulheres abriu-se a mais diversidade e tornou a interseccionalidade uma questão-chave da sua visão e dos seus princípios.

Acreditamos que a Justiça de Género é a Justiça Racial é a Justiça Económica. Devemos criar uma sociedade em que as mulheres- em particular as mulheres negras, as mulheres nativas, as mulheres pobres, as mulheres imigrantes, muçulmanas e mulheres queer e trans – sejam livres e capazes de nutrir as suas famílias, de qualquer forma que elas sejam formadas, em ambientes seguros e saudáveis, livres de impedimentos estruturais “.

O que é a teoria da interseccionalidade?

O termo foi utilizado pela primeira vez nos Estados Unidos em 1989 pela pesquisadora Kimberlé Crenshaw, que argumentou que as mulheres negras eram excluídas das teorias feministas e anti-racistas tradicionais, porque ambas não conseguiam levar em conta a especificidade da dominação criada pela acumulação dessas duas experiências: sendo mulher e sendo negra.

Mais amplamente a interseccionalidade “é usada para se referir à maneira complexa e cumulativa de que os efeitos de diferentes formas de discriminação (tais como racismo, sexismo e classismo) se combinam e se cruzam – especialmente nas experiências de pessoas ou grupos marginalizados.”

As we said, the initiative quickly spread into the world, both as a protest against Trump’s election but also, at least in Europe, as a more general protest againt the currently successful far-right/ conservative movements.

Como dissemos, a iniciativa rapidamente espalhou-se pelo mundo, como um protesto contra a eleição de Trump, mas também, pelo menos na Europa, como um protesto mais geral contra os movimentos de extrema-direita / conservadores que são atualmente bem-sucedidos.

 “In Portugal, it often feels like a bubble, a bit apart from the world and even from Europe. We don’t have these far-right parties for example. But we still have a lot to fight for and we believe that when it comes to human rights and democracy there is no here and there”. Patricia Martins

 “Em Portugal, muitas vezes sente-se como numa bolha, um pouco à parte do mundo e até mesmo da Europa. Nós não temos esses partidos de extrema-direita, por exemplo. Mas ainda temos muito a combater, e acreditamos que quando se trata de direitos humanos e de democracia, não há cá e lá“. Patricia Martins

She also underlines the importance of the question of intersectionality: even though the racial factor is much less important in Portugal than in the USA, it is important for this March to be the affirmation of all human rights: 

Ela sublinha também a importância da questão da interseccionalidade: embora o factor racial seja muito menos importante em Portugal do que nos EUA, é importante que esta Marcha seja a afirmação de todos os direitos humanos:

We did an open-call to all organizations that advocate human rights somehow, it can be feminist, LGBT, environmentalist, anti-racist… We believe that it is important to underline the reality of intersectionality. 

We want to make a stand, say that we are here and we choose our side, the one that is against Trump and his administration. We expect that everyone that is not OK with his racistm mysiginist, classist, stances and policies, join us to make a stand.

Fizemos uma chamada aberta a todas as organizações que defendem os direitos humanos de alguma forma, pode ser feminista, LGBT, ambientalista, anti-racista… Acreditamos que é importante sublinhar a realidade da interseccionalidade.

Queremos tomar posição, dizer que estamos presentes e que escolhemos o nosso lado,e ele é contra tudo aquilo que Trump e a sua Administração representam. A nossa expectativa é que onúmero de pessoas que não se revê neste discurso e nestas políticas misóginas, racistas, belicistas,classistas, homofóbicas, etc.decida tomar posição.”

Here is a video showing the support to the March of some of friends of us, living in Porto and coming from various countries: 

Aqui está uma video mostrando o apoio à Marcha de pessoas de vários países e que vivem no Porto:

Parar o machismo, construir a Igualdade: a national and collective initiative

Parar o machismo, construir uma Igualdade: uma iniciativa nacional e colectiva

The organization of the Women’s March in Portugal is part of a larger and new project, “Parar o Machismo, Construir a Igualdade”, or in English “Stopping Machism, Building Equality”. This national initiative was launched in the very beginning of 2017 by a network of feminist associations of Lisbon, Porto, Braga and Coimbra, including Contrabando.Their first project is a raising-awareness campaign about the issue of sexual harassment in public spaces and the collective thought it would make sense to combine both the March and the launching of the campaign, as both are ways to call for the respect of women’s dignity and rights in the society. It was concretized by the slogan of the campaign “Não Sejas Trump”, “Don’t Be Trump”.

A organização da Marcha das Mulheres em Portugal inscreve-se num projecto maior e recente, “Parar o Machismo, Construir a Igualdade“. Esta iniciativa nacional foi lançada no início de 2017 por uma rede de associações feministas de Lisboa, Porto, Braga e Coimbra, incluindo Contrabando. O seu primeiro projeto é uma campanha de sensibilização sobre a questão do assédio sexual nos espaços públicos e o colectivo pensou que faria sentido combinar a Marcha com o lançamento da campanha, já que ambos são formas de exigir o respeito à dignidade e aos direitos das mulheres na sociedade. Foi concretizado pelo slogan da campanha “Não Sejas Trump”.

Posters and stickers have already been displayed all around the streets and a performance will be realized during the March. They will be then working on building a harassment map of the city, as it has already been made in Brazil, in order for women to share their experiences.

The idea of this campaign was born of the observation of the lack of “portuguese public awareness about sexual harassement.

Cartazes e adesivos já foram colocados em todas as ruas e uma performance será realizada durante a Marcha. Trabalharão, depois,  na construção dum mapa de assédio da cidade, como já foi feito no Brasil, para que as mulheres compartilhem suas experiências.

A ideia desta campanha nasceu da observação da falta de “consciência pública portuguesa sobre o assédio sexual”.

A lot of people don’t see harassment it as an aggression but more as a joke, sometimes a bad one yes, but without much importance. (…) We can’t accept that violence and machismo be seen as natural. We have the right to walk in the street without being assaulted and insulted. We have the right to peace and dignity. ” Flyer “Parar o Assédio, Construir a Igualdade”

Muitas pessoas não vêem o assédio como uma agressão, mas mais como uma brincadeira, por vezes de mau gosto, é certo, mas sem grande importância. (…) Não podemos consentir que a violência e o machismo sejam naturalizados. Temos o direito de andar na rua sem sermos agredidas e insultadas. Temos direito à paz e à dignidade.” Flyer “Parar o Assédio, Construir a Igualdade “

Indeed, despite being quite spread no significant public campaign against sexual harassment has ever been implemented in Portugal, as it has been in other countries.

De facto, apesar de ter sido bastante difundido, não foi implementada nenhuma campanha pública significativa contra o assédio sexual em Portugal, como tem acontecido noutros países.

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Singapour, 2002
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Australia, 2015
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USA, 2013

This lack of awareness can partly explains why the 2015 alteration of the 170th article of the Penal Code, criminalizing sexual harassment, didn’t have a significant effect.

Esta falta de consciência pode explicar em parte porque a alteração em 2015 do artigo 170 do Código Penal, que criminaliza o assédio sexual, não teve um efeito significativo.

A lot of women that we interwied are not really aware that it’s possible to press charges if the man goes too far (…). The head of the Great Porto’s Police (PSP) revealed us that had not received any complain.” Euronews, July 2016

“Muitas das mulheres que entrevistámos não estão realmente conscientes de que é possível apresentar queixa se o piropo for longe demais. (…) O Comando Metropolitano do Porto da PSP nos revelou não ter recebido qualquer queixa.” Euronews, Julho 2016

The law was a big step, since it acknowledges harassement as a reprehensible practice. (…) However, between the law and the modification of people’s behaviors there is a huge gap. I believe that things continue as they were, not only because behaviors are hard to change but also because there was almost no discussion. We launch this campaign precisely to bring this issue on the public agenda again.” Patricia Martins

A lei significou um grande avanço, pois reconhece o assédio como prática condenável. (…) No entanto, entre a letra da lei e a alteração das práticas das pessoas vai um passo de gigante. Creio que as coisas continuam mais ou menos iguais, não só porque as práticas são difíceis demudar e demoram tempo, mas também porque a discussão, de repente, deixou quase de se fazer. Daí termos decidido avançar com uma campanha, exatamente para recolocar a questão do assédio na ordem do dia.” Patricia Martins

Sexual harassment is of course not the only feminist fight that portuguese feminists want to wage, among others Patricia underlined the issue of domestic violence , and salary inequalities. Within the framework of “Parar o Machismo”, a forum open to all feminist proposals in Porto will be organized in the next months. 

Obviamente, o assédio sexual não é a única luta feminista que as feministas portuguesas querem conduzir, Patricia sublinhou entre outras as questões da violência doméstica e das desigualdades salariais. E no âmbito da iniciativa Parar o Machismo, um fórum aberto a todas as propostas feministas no Porto será organizado nos próximos meses.


To go further about feminism in Portugal, its history, its various fights, its main leaders etc…,  visit the feminist 40 years-old NGO UMAR’s (União de Mulheres Alternativa e Resposta) Centro de Documentação Elina Guimarães

Para ir mais longe sobre o feminismo em Portugal, a sua história, as suas várias lutas, os seus principais líderes, etc …, visitem o Centro de Documentação Elina Guimarães da UMAR.

And as usual we will conclude this post with some music, this time we chose the Portuguese rapper, Capicua, famous for her feminist and environmentalist stances, who supports the Women’s March. In this song, “Alfazema”, she talks about the feeling of insecurity and the lack of confidence that most girls know well: 

E como de costume concluímos este post com um pouco de música –  desta vez escolhemos a artista de rap portuguesa, Capicua, famosa pelas suas posições feministas e ambientalistas, e que apoia a Marcha das Mulheres. Nesta canção, “Alfazema”, ela fala sobre o sentido de insegurança e a falta de autoconfiança que a maioria das raparigas conhece bem:

“You have to be blond, good, skinny, sensual and with IQ  / Clearly that keeping self-esteem gives a lot of work / I’m not a superwoman and I fuck the world

Tens de ser loira, boa, magra, sensual e com Q.I.
Claro que assim manter uma auto-estima dá muito trabalho.
Não sou a super-mulher e mando o mundo po caralho!

 

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